SOA
- 8naturalinfinito
- 1 de fev.
- 3 min de leitura
Este programa na RTP Play fez-me vibrar de uma forma diferente, são 5 episódios com cerca de 30 minutos cada, senti muitas coisas a “ou-vê-los”.
A escuta ativa cria uma “imagem” construída com todos os outros sentidos, os ouvidos não têm pálpebras, ouvimos mesmo a dormir ou no breu, cada ouvido ouve de uma forma distinta e temos dois.
O som não existe só por si, é uma vibração, dentro dos nossos ouvidos há membranas que vibram e o cérebro interpreta. E de que forma? Cada um ouve o que ouve e interpreta à sua maneira, é um pouco como a cor, é aprendido desde a nossa infância.
Eu ouço coisas que não é suposto, a “voz” dos morcegos, o apito para cães ou certos monitores de TV, aqueles mais antigos.

Há sons que evocam imagens e vice-versa, alimentam as nossas memórias primordiais, pois mesmo dentro da mãe ouvimos ou sentimos os sons.
O som de um incêndio “ouve-se” no peito e ressoa no esqueleto. Os sons transportam-me para certas memórias, sensações, sentimentos, com alguns sinto outras manifestações físicas menos agradáveis, alguns mais delicados que outros, o som de uma lareira ou da chuva a bater no telhado, remete-me para a envolvência, ao calor do ninho, ao colo, o da água nos ribeiros saltitantes traz o fresco e às vezes a vontade de ir ao wc, o som da brisa nos ramos das árvores, e dos seus habitantes, levam-me no tempo e no espaço da primavera/verão, e por aí adiante...
Na respiração, as inspirações e expirações, lembram o constante movimento na quietude, assim como das ondas do mar, que me levam ao levitar numa sensação de flutuação e sonolência prazerosa.
Todos existimos em algum lugar e nesse lugar há muitos símbolos vibracionais, corporais, incluindo os sonoros.
A partir de alguns, retorno à infância, a ressonância revive memórias emocionais ou crio histórias através deles.
Outros que considero menos agradáveis tornam-se perturbantes, os denominados “ruídos” que serão diferentes para cada um.
Muitas vezes “vemos” com o som, que contorna espaços antes de vermos o que o transmite, aperta e alarga espaços transformando-se em diversos ambientes, influenciam, silenciam ou atenuam emoções e experiências.
A vibração no espaço torna-se num lugar de reflexão, influência das frequências, como perceciono as ambiências, a propagação do lugar que os transforma tridimensionalmente.
Adquirem matéria, cores e formas, a ambiência envolvente tinge os lugares, tornando-os mais ricos, reverbera nas estruturas, respeita quem os frequenta, todos os lugares os têm, basta para isso estar atenta a eles, criam deslumbramento, paisagens, dimensões, ambientes, estabelecem conexões.
Posso usar a acústica para a propriocepção, quebra de movimento no espaço, dar tempo consciente, torna-me responsável pelo barulho que gero, ajusto o volume interno para ficar mais senciente.
Os espaços falam, nalguns até o silêncio se ouve, os silêncios de outras eras estabelecem diálogos internos e externos, murmuram e escutam-se, estes evocam a ancestralidade, embutida nas estruturas que contam as histórias dos lugares, despertam a imaginação. Prestar atenção, respirar, inspirar-expirar, dá movimento aos sons, atribuem qualidades sensoriais aos sítios.
Os estímulos exteriores podem ser assustadores, o “silêncio” pode ser ensurdecedor, escutar em vez de apenas ouvir, ecossistemas inteiros a serem dizimados, silenciados, extintos. E o ruído pode ser silenciador por ser uma mistura tão grande que não se consegue identificar algo de concreto.
Posso desenhar os sons no papel ou no ar, com o corpo, no seu princípio está a escuta ativa, com muitas camadas sensoriais por absorver. Uma mãe reconhece a qualidade do som do choro do seu bebé, sabe a que diz respeito, mudar a fralda, fome, sede, dor, colo, etc., traz a importância dos sentires sentidos nas memorias afetivas.
E a pergunta persiste… se uma árvore cai no meio de uma floresta e não está alguém para ouvir… será que faz barulho?
Tick take toadas e tons
como sempre assino, MJL




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