top of page

A Montanha

1 de out.
3 min de leitura
(foto MJL - 2008)
(foto MJL - 2008)

Esta é uma montanha muito sui generis, vem das entranhas da terra e do mar, nasce na escuridão das águas profundas geladas e desertas que apesar tocarem no magma não aquecem.


A sua raiz funda é ancestral, gigantesca, sustenta tudo, desde a base em terra até aos picos sempre gelados das neves eternas.


Apenas conheço um pouquinho dela e gosto de todos os lugares por onde passo.


Junto ao mar onde as ondas podem ser revoltas, fustigadas por ventos fortes que rebentam a espuma e levantam os aromas da água salgada, misturada com o som dos pássaros que desafiam as leis do sossego e do conforto, parecendo apreciar estes desafios com o contentamento de quem plana sem esforço e daí grita ao mundo, mais… mais…, ou tranquilas no seu ir e vir hipnotizante embalando para um sono tranquilo, descansado aproveitando o sol como manta de aconchego.


Aqui também encontrei grutas frescas que abrigam dos raios escaldantes num qualquer verão. O ir e vir do mar e vento vão desgastando e quebrando as rochas troneando-as até serem areias que preenchem as praias, mais em cima ou em baixo conforme as marés as vão levando e trazendo.


Subindo pelas suas encostas há arbustos autóctones, plantas várias, habitat de toda a espécie e variada fauna. Frescos bosques verde-claro onde a luz do sol muda em cambiantes de amarelos e verdes, onde tudo parece adquirir esta qualidade do verde e o ar é translúcido. Encontrei correntes frescas de água, saltitando alegremente de pedra em pedra murmurando músicas ancestrais enternecedoras até ao rugido húmido de cascatas onde se precipitam furiosas quantidades de água vindas lá do topo derretido ou das nascentes nas entranhas ocas nesta terra agreste. Os vapores frescos podem ser suaves mostrando as sete cores do arco iris ou muito molhados e, se não me quiser molhar, tenho de me afastar, estar lá pouco tempo ou vestir um impermeável. Nas noites de verão escutam-se os grilos em grilar constante apaziguador, de dia ouve-se uma miríade de cantos de outras tantas aves canoras e alguns insetos.


As ascensões podem ser suaves, pedregosas, arenosas, escorregadias, ingremes, lisas em terreno planáltico ou a pique. Diz-se que se deve começar com frio e como um velho, para se chegar quente e como um jovem. Um passo de cada vez. Nos planaltos, no verão, as cigarras cantam como que a anunciar o crepitar das chamas abrasadoras do sol.


Adentro florestas sombrias e frias, onde as raízes da terra sustentam as das grandes e frondosas árvores centenárias, aqui o ar é mais denso e frio, há murmúrios dos seres mágicos com a brisa a passar pelos troncos rugosos transformados pela idade, passagem do tempo ao sabor das estações do ano. Á noite vislumbram-se pirilampos rápidos e fugidios mostrando os seus sinais luminosos, sempre verdes, como que piscando o olho a quem passa.


(foto MJL - 2016)
(foto MJL - 2016)

À medida que se ascende, a vegetação vai escasseando, cada vez mais rasteira, entra-se na rigidez das rochas, calhaus e pedras soltas que rebolam encosta abaixo. A ascensão, aqui, fica cada vez mais desafiante, há que ter cuidado onde colocar cada passo, o seu restolhar vibra no esforço do caminho, torna-se rude, rústico, grosseiro, agreste. Em cada curva pode surgir um animal da terra de médio ou grande porte, já encontrei saca rabos, marmotas, coelhos, texugos, raposas, javalis, cavalos e veados.


A exposição aos elementos é maior, não se encontram muitos abrigos, se uma tormenta se desencadeia há que fugir, uma trovoada em alta montanha é algo pouco agradável de enfrentar, as forças da natureza são implacáveis, ventos uivantes, chuva torrencial, raios e trovões de meter respeito e medo, mas uma vez lá em cima há que decidir célere quanto ao que fazer.


Mais acima o frio aperta e entra-se em zonas de neve ou gelo, para chegar ao topo devo ter o material adequado, não se pode ir de ânimo leve, todas as medidas de segurança devem ser tidas em conta.


Nestas ascensões e ambiência levo tudo o que possuo para sobreviver às costas, há que escolher muito bem o que carregar, compreendendo o essencial ou o supérfluo, o que poderá ditar entre o viver, sobreviver, ou, em última instância mudar os planos.


Andar por estes lugares é sentir uma liberdade incomensuravelmente avassaladora.

Inspirado nas minhas vivências nas montanhas

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page