Luna

Dizem… os antigos, que nem sempre assim foi… de quando em vez, no findar do escuro, a madrugada desperta o sol que já lá vem, sem se mostrar, e a lua redonda amarela-se.
Os anciãos contam que quando a Lua se alaranja os dias seguintes serão de canícula fora de época.
Os aldeãos que buscam a sua sabedoria, sabem o que devem fazer e procuram água para regar, dar de beber aos animais e não passarem, também eles, sede.
Nesses dias do fustigar dos raios solares, o abrigo é mais procurado e mais longo, muitas vezes nem as sombras das árvores parecem ser suficientes para lhes apagar o fogo de fora.
As noites acalmam os ventos e as fogueiras não se acendem, aproveitam para dormir mais cedo e no dia seguinte têm outros desafios análogos.
Nestas aldeias à volta do grande lago salgado encontrar água que se consiga beber é uma atividade dura diária, é necessário conhecer as plantas que a reservam no subsolo, escavar bem fundo até chegar às raízes e recolher, carregar para casa, triturar, espremer, guardar em bexigas e reservar para os dias vindouros.
A polpa depois de ser retirado o “sumo” é secada e serve para alimentar a população. Tudo aqui é comunidade, todos contribuem, pois uns sem os outros não sobreviveriam.
Cada ser é imprescindível para o bem comum e assim todos usufruem.
Nestas noites, também se conta na velha lenda, a separação entre o Sol e a Lua, dois eternos apaixonados condenados e ambos choram o desencontro.
No entanto uma velha raposa esperta como todas as raposas sabem ser, amiga do poderoso irmão Lobo que uiva e da grande Ursa que ruge, congeminaram um plano, para que em alguns dias se possam ver à distância.
E é por isso que há dias em que a Lua difusa e quase transparente se pode avistar no céu à luz ofuscante soalheira.
MJL
Estória contada por uma Lua Cheia bem alaranjada numa madrugada de Março de 2026




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