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Lugares - Algures

Quando era miúda dizia não ter terra. E porquê? Porque nasci em Lisboa e não “ia à terra” no verão como a maioria dos outros miúdos. Mas ia a muitas terras. Tive uma infância selvagem, livre e feliz.


Selvagem porque naquele tempo ainda era tudo muito cru, não havia telemóveis, dinheiro em cartões ou multibanco, computadores, etc., a televisão tinha 2 canais e abria a emissão lá pela hora do jantar e aos fins-de-semana à hora de almoço.


Livre porque os meus pais saíam de casa de manhã para trabalhar, voltavam para jantar e dormir, nos entretantos eu fazia o que queria.


Feliz porque tinha todo o tempo do mundo para usufruir do que queria e porque os meus pais provinham-me uma casa, cama, mesa e roupa lavada sem pedir muito em troca.

(foto MJL - 2011)

Os locais de férias eram variados, entre as casas dos avós, a rua, amigos dentro ou fora das casas deles, amigos mais velhos que “tomavam” conta de mim nas lojas da vizinhança ou no parque onde brincava. Outras vezes ficava em casa a ler, a brincar e a fazer patifarias, onde contava, muitas vezes, com a colaboração do meu irmão dois anos e 7 horas mais velho. Fazíamos parcerias, numas ocasiões, com rebaldaria/rebeldia, ou um contra o outro, noutras.


Estas “ruas” muitas vezes eram campo, perto de casa de um dos meus avós. A casa deles foi das primeiras a ser construída, à volta havia campos de trigo apropriados para jogar às escondidas, assisti à construção das casas em volta era onde brincava, nas obras, após a saída dos pedreiros e afins, onde me sujeitava a acontecer algo com finais menos "simpáticos", o que felizmente não aconteceu, onde havia mil e uma aventuras, sem qualquer preocupação a não ser ouvir a voz da minha avó chamar para o almoço ou jantar.


Tinha as praias do algarve onde os meus mais nos levavam invariavelmente de férias, com aventuras no mar, como ir ver as grutas em Lagos, com o meu irmão, num colchão amarelo movido com as nossas maravilhosas barbatanas, qual rabos de sereia velozes e poderosos, o "Tease Beach” (tradução - Praia dos Tesos) onde apanhávamos lambujinhas e privávamos da companhia dos pescadores, os barreiros, nas suas barracas de artifícios de pesca, tipo “Verano Azul” (deu na TV uns anos mais tarde), a praia do Guincho com uns avós (na linha de Cascais) e a de Copa Cabana com os outros avós (na Quinta da Lomba), a praia de Carcavelos onde ia com o bando de putos da praceta, da minha idade, a pé desde São Domingos de Rana e outras que tais perto de casa ou aos fins-de-semana com os pais, Figueirinha, Arrábida, Sesimbra, Costa da Caparica, Lagoa de Albufeira e muitas mais.


Tinha as piscinas do Barreiro, onde morava, ou as dos empreendimentos turísticos espalhados pelo país e Espanha onde ia com os meus pais.


Tinha o mundo inte(i)rno nos livros que lia às “pazadas”, entre as aventuras dos Cinco, com aqueles lanches que tentava replicar em casa, ou dos Sete, Gémeas, Quatro torres, mais tarde aventuras no futuro com os livros de ficção científica ou fantásticos por mundos nunca dantes navegados, histórias do Júlio Verne, os mistérios da Agatha Christie, Nero Wolf do Rex Stout, os romances clássicos de Alexandre Dumas, a vingança do Conde Monte Cristo, histórias de caça aos tesouros, policiais, de terror como o inesquecível Mil e um fantasmas, o romance de Jean-Paul Sartre “Os Dados Estão Lançados”, como os condensados das Selecções do Reader's Digest, entre tantos outros. E, dos de banda desenhada que conseguia ler, as revistas do Tintin, livros de capa dura do Michel Vailant, Bernard Prince, Rameau, Tintin, Asterix, Luc Orient, Taar, Conan, Lucky Luke, Marsupilami, Buddy Longway, os famosos Tio Patinhas e tantos outros quejandas.

Para conhecer os mais caros ia para o antigo Pão de Açúcar lê-los, sentada no chão do corredor, depois de passar pelo corredor dos doces e procurar os que caiam das embalagens rotas (naquela altura não havia uma FNAC que disponibiliza sofás para quem queira), sempre atenta para ver se não aparecia o segurança de quem fugia a sete pés.


Estas memórias moram em mim, tão vívidas e viscerais de tal forma que ao contá-las as sinto como se estivesse a vivê-las agora, perdida no tempo e no espaço, onde há sempre associado uma qualquer comida, um aroma, um som ou uma música que muitas vezes acompanhavam as leituras e que as despertam aparentemente do “nada”.


Assim, não tenho terra, mas tenho muitos lugares, reais e irreais, paisagens do agora, do passado e imaginárias… Algures!

 

Thick-taque lugares

como sempre assino, MJL

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