A Bailarina da Caixa de Música
- 8naturalinfinito
- 1 de abr.
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Êminácia foi nascida e criada para ser bailarina, mas não daquelas rígidas e emproadas muito clássicas, os seus movimentos, desde que começara a andar, eram muito fluidos e leves, parecia uma fada saltitante.
O seu criador tinha-a feito com todo o amor e rigor. Assim que se pôs em pé deu logo uns passinhos delicados. Com o passar dos anos tornou-se mais imponente, poderosa e imensamente elegante, sem nunca perder o gesto inocente e harmonioso da infância.
Vivia dentro de uma caixa de música. Cada vez que a visitavam a tampa era aberta de par em par, a caixa ficava escancarada, o ar entrava, os seus cabelos negros ondulavam ao ritmo da melodia mais maravilhosa que se podia escutar, as notas seguiam-se num compasso a vários tempos e ritmos, quando começava a esmorecer lá vinham umas mãozinhas pequenas dar à corda e uns olhos brilhantes negros curiosos que observavam deliciados os movimentos graciosos da pequena bailarina rodopiante.
Com o passar do tempo, a caixa de música foi ficando esquecida, até que deixou de ser aberta de todo sem se ouvir mais aqueles acordes melodiosos.
Êminácia nas noites escuras conseguia levantar a tampa e descer da caixa, aí rodopiava pela casa adormecida, toda ela lhe pertencia, mas com o passar dos anos foi-lhe sendo cada vez mais difícil sair, a tampa pesava, a descida custava e foi-se deixando ficar fechada naquele seu tão bem conhecido espaço. O ar passou de florido aromático a alecrim e madeira nutrida para um ar parado, seco e empoeirado.
Não se sabe quanto tempo ficou ali, parada. Um dia, porém, uma velha anciã com as suas mãos rugosas e trémulas chegou e voltou a dar à corda e a abrir a tampa de par em par, os seus olhos eram negros e curiosos, na sua lembrança restavam os ecos daquela antiga melodia tão linda que recordava em sonhos distantes ecos da sua memória esquecida.
As roupas da pequena bailarina estavam enegrecidas, os seus membros estropiados, mas a anciã, apesar dos seus movimentos tremidos agarrou nela e com todo o seu amor e rigor devolveu-lhe a mobilidade. À medida que os membros foram restaurados com o auxílio de algumas peças metálicas a vontade de dançar foi aumentando. As suas roupas foram arranjadas, os tons agora eram mais escuros, no entanto o brilho emanava de dentro e refletiam os raios solares e lunares, mostrando centelhas rodopiantes de uma forma incrivelmente bela.
Apesar de todos os desafios e contradições, Êminácia voltava a rodopiar, com movimentos mais lentos, a música também era mais lenta, pois a anciã já não conseguia dar à corda até ao fim, o deambular pela caixa era mais preciso, mais contido, mais pensado e sentido.
Com o bater do coração em uníssono entre anciã, de olhos deslumbrados e bailarina recuperada, o tempo juntas tornou-se cada vez mais precioso.




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