Dama Negra
- 8naturalinfinito
- 1 de jan.
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Desde o início do tempo que, no olho de Gaia, vivia uma formosa feiticeira conectada com todas as criaturas do planeta.
Durante milhares de anos viveu ligada aos elementos, às estações do ano. Assistiu a muitas criações e destruições.
O seu lugar era espaçoso, um Zenote recôndito, abrigado do calor e do frio, de onde se ouvia o som do mar próximo.

(Foto MJL – 2023)
As ondas desta grande água salgada agitavam-se em respiração profunda com as marés, ondas revoltas de som forte agitado ou ondinhas leves e calmas que produziam um efeito relaxante e tranquilo.
No centro havia um lago de água doce cristalina parado, como um espelho, bem fundo onde o céu noturno se refletia e não se sabia onde era o cimo e o baixo.
Ao fim de milhares de anos apareceu uma nova espécie de animal, o bicho-homem.
A feiticeira apaixonou-se por um deles, o jovem Tom, garboso carvoeiro da aldeia, que, quando passava por perto cantava numa voz grave de barítono que a encantou. Teve um breve relacionamento, pois o carvoeiro numa entrega de carvão mais distante teve um acidente na estrada e partiu para outro plano deixando o seu corpo a servir de substrato à grande árvore Mãe e o coração da feiticeira ficou despedaçado.
Desse fortuito relacionamento concebeu e deu à luz uma linda menina de pele morena, cabelos muito escuros, como numa noite de lua negra. Possuía também uns enormes olhos azeviche, expressivos e profundos como o fundo do mar.
Aos primeiros choros no sopro de vida a pequena soou como o crocito de um corvo e assim a sua progenitora intuiu o nome que lhe ofereceu…. Corvídea.
Após a fase de crescimento, relativamente breve, ao atingir a idade de jovem adulta, a mãe ofertou-lhe um manto, uma capa feita de penas negras como o azeviche, lustrosas. Quando incidia a luz de determinada forma irradiava reflexos azuláceos.
Quando a colocou pela primeira vez sobre os ombros, a capa, envolveu-a gentilmente e recebeu um par de grandes asas negras, fortes, que lhe permitiam voar para onde quisesse. Podia mostrar-se apenas uma ou dividir-se em muitas, numa revoada colossal.
Transmutava-a como um corvo, palmilhando terrenos sem fim, limpando, transmutado a morte em vida, essa era a sua função, o propósito do seu nascimento, a sua herança ancestral que aceitou cumprir honrando o passado, o presente contribuindo para um futuro invisível, que talvez lhe fosse legado de forma deslumbrantemente mágica pelos seus antepassados.
Ainda hoje se podem ver os resquícios desta existência por muitas partes do mundo e dependendo de quem a vê há medo, respeito ou admiração, chamam-na a Dama Negra.
Nos dias em que o Sol e a Lua se escondem ainda visita a sua mãe no Zenote recôndito, abrigado do calor e do frio, de onde se ouvia o som do mar próximo. Aqui retorna ao seu local de nascimento, é onde se sente segura para retirar o manto dos ombros e libertar-se por completo.
Inteira voltando a ser menina, filha do bicho-homem e da Mãe eterna.




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