Ancestrais
- 8naturalinfinito
- 1 de mar.
- 4 min de leitura

(MJL - 2009)
Os antepassados, seres ancestrais, estão ao nosso serviço para nos guiar na jornada que é viver.
As rugas e as fendas que se mostram na pele são como ramos carregados de frutos que vergam sob o seu peso e deixam cair para criar vida ficando para trás a semente.
O corpo carregado de ossos descaídos pelas experiências mostra alguns caminhos percorridos, vidas vividas na busca do que serve sem desprezar a lição aprendida do que não serve.
Sem julgamento, sem denegrir imagem alheia em benefício do próprio, seguem o seu caminho caminhando como qualquer alma que caminha só.
As pernas às vezes sem força para subir, às vezes trôpegas a tropeçar nas pedras do caminho, nos tapetes, nas mobílias dos seus ancestrais, nos espelhos, nas louças e nos vidros dos copos, onde os “alimentos” dos dias de festa eram ricos, aconchegantes, saciantes e reconfortantes.
Os ouvidos podem ouvir mal os sons terrenos, só que ouvem bem os sons internos.
A boca pode já não ter dentes, pode não articular bem as palavras, pode não se dar a entender às intenções que quer verbalizar, pode não saborear como antigamente.
Tudo isto é nada na memória das entranhas vivas de sabedorias que sabe reconhecer o que é.
Nascemos nus e sós, dormimos e sonhamos nus e sós, e morremos nus e sós. Cada alma caminha só a experienciar, no que encarnada e veio viver.
Seres de luz iluminados, anjos da guarda, de asas abertas, que nos amparam todos os dias sempre que necessário deixam-nos ser, se cairmos ajudando-nos a levantar, cada vez que acontece ou até mesmo carregam-nos no seu colo reconfortante.
Esta semente em que nos vamos tornando, cada vez mais mirrada e pequena, contém todo o potencial de uma nova vida, como a semente de uma nova árvore, da grande árvore da vida.
As mãos encarquilhadas pelo tempo como galhos rugosos ao sabor do vento, mãos de força, mãos de trabalho, mãos de cura, mãos de transformação.
Os cabelos esvoaçantes de tom branco refletem a luz do luar embalados pelas brisas do tempo.
As suas raízes entrelaçam-se no subsolo bem longes onde buscam e encontram a sabedoria ancestral telúrica enterrada no profundo terreno do lugar e das suas gentes.
Os olhos outrora grandes e límpidos agora vêm turvo na visão terrena, mas pressentem algo que outros, mais novos, não vislumbram.
No tempo em que era jovem recebeu a informação, mais tarde incorporou o conhecimento, hoje, agora detém a sabedoria.
O cansaço dos anos pode pesar, a mente está virada para si, para o que é, para o que sente.
Por fora pode parecer uma anciã sem qualquer função, sem utilidade, por dentro sente-se jovem como quando menina e saltava à corda ou quando aprendeu a andar, na descoberta alegre do saber terreno.
Encantada com tudo em redor, deslumbrada com todos os seres, os visíveis e os invisíveis aos olhos alheios, conhecia-os bem.
A ela respondem, só ela os vê, só com ela falam, escutam e compreendem, eles moram ali bem perto, à distância de um milímetro, de um segundo, de um pensamento.
Para lhes aceder basta pensar neles, é aí que os encontra, tão perto, tão próximo, tão seus, tão longe, estão todos, são de toda a sua linhagem.
O tempo e o espaço unidos trazem-lhe essa possibilidade, a de acesso ao todo apenas quando assim o deseja, quando assim o decide, para tal basta observar, estar atenta, dar um passinho atrás do acontecimento e é nessa distância abrangente que entende.
Num ondular na passagem circular e cíclica do tempo, na navegação em águas profundas com vários temporais, ventos, ondas, tempos em seca ou revolta.
Todos respiramos o mesmo ar, bebemos da mesma água, a natureza é transmutável, é una e está ligada dentro do nosso planeta, está em constante transformação, se não preservada transforma-se noutra coisa que talvez não nos sirva num futuro próximo.
O útero agora vazio escuro e negro tem a oportunidade de amparar no colo e acolher o tudo, pois só vazio tem esse espaço liberto para o que há.
Os gestos quotidianos poderosos destrutivos e criativos dos ciclos auxiliam na alquimia dos alimentos, dos pensamentos e das emoções. As mãos suaves, ao mesmo tempo aconchegantes, leves, tranquilas, apertam com a certeza do caminho a seguir. Ao toque são frescas ou quentes, consoante as necessidades do outro, são gestos de cura, são gestos de fé, são gestos de amor.
A respiração é lenta aproveitando cada segundo do ar que entra e sai dos pulmões, aguarda serenamente as inspirações.
Acorda todos os dias renovada para o novo nascer do sol como se de uma tela em branco se tratasse, a preencher com o que aí vier, ontem tinha alinhavado o que fazer, de manhã começa por aí e vai observando as necessidades do momento ajustando as ações ao sentimento.
Quando o Sol vem a caminho do seu nascer levanta-se, o dia não tem horas marcadas, não tem calendário, escuta o corpo e as suas necessidades, come e bebe quando assim lhe é pedido. Ao pôr-do-sol recolhe-se entra no ninho, no seu casulo quente, aconchegante e prepara um sono reparador para que no dia seguinte possa encontrar-se em pleno.
Todos os seres de que se aproxima têm um lugar, têm um espaço, têm um tempo, em observação ativa e consciente, sabendo que, o outro, por dentro, tem os seus desafios como todos, só assim consegue compreendê-los, entendê-los, ajudá-los se assim o desejarem, se não, fica em silêncio aguardando a procura e o encontro.




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