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Zafu e Matuzalém

1 de fev.
2 min de leitura

(MJL - 2021)

Em Constantinopla, numa qualquer madrugada, nasceu uma menina a quem chamaram Zafu.


Nasceu no grande turbulento, movimentado, famoso e antigo bairro de mercadores, Galatazaray, cresceu por entre aquele intrincado espaço, onde as ruas continham todo o tipo de bazares, onde as mercadorias chegavam descarregadas diariamente no porto super-movimentado Corno de Ouro.


Criada naquela envolvência labiríntica, onde as cores, sons e aromas eram intensos, aprendeu misturar-se com os milhares de pessoas que transitavam a todas a horas.


Provinha de uma família unida, se bem que pobre, o seu avô foi quem a criou e ensinou-a a não dar nas vistas, a camuflar-se, ensinou-a também a ler, escrever, sobre história e cultura diversa. Era Zafu quem ajudava no regateio com os vendedores e compradores, nas contas da pequena loja de especiarias do seu avô, era lá que passava a maior parte dos seus dias.


Quando se conseguia escapulir ia explorar os lugares mais recônditos, os recantos encantados, os lugares proibidos para as mulheres, algumas vezes disfarçava-se vestindo trajes mais masculinos para poder mover-se com maior liberdade, uma vez que as mulheres eram sempre obrigadas a ser acompanhadas por um membro familiar masculino.


Foi por estes caminhos que, ainda criança, conheceu Matuzalém, um garoto da sua idade que também varava a cidade velha como se lhe pertencesse.


Cresceram e corriam juntos sempre que podiam, no encontro das aventuras e descobertas nesses dias quentes. Descobriram caminhos “secretos” lugares onde podiam espreitar os proibidos e de onde às vezes surripiavam comidas que arrefeciam nas janelas ou varandas. Trilhavam novas rotas, por cima ou por dentro de muralhas, moradias, jardins e templos. Às vezes tinham de correr para evitar serem apanhados pelos donos das lojas ou mesmo pelas autoridades que patrulhavam as ruas para manter a ordem e segurança, resolver desacatos ou até mesmo levar preso quem desobedecesse às rígidas leis impostas naquela época.


Era com este espírito de desbravar aventureiro que estes dois amigos calcorreavam as ruelas e becos, desde tenra idade. Zafu mais pequena era mais ágil e Matuzalém mais forte, para quando era necessário desarredar obstáculos à sua progressão no terreno, era uma parelha de valor.


Esta dupla era imparável e assim foram crescendo.


É claro que ainda se encontram juntos até hoje, já bem velhinhos, mas a sua “rebeldia” mantém-se intacta. Agora são quem detém a pequena loja de especiarias do seu avô, no bazar da azáfama diária do Porto Corno de Ouro.

 

Tick take… uma especiaria

como sempre assino, MJL

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