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A Ursa dos laivos alvos

Durante o inverno, Artio Pyrenaicus, na sua toca, deu à luz três pequenas crias fêmeas a quem chamou Arth, Bhele e Kamay, as três nasceram fortes e saudáveis.


Na primavera, quando o degelo se iniciou e os rebentos frescos começaram a despontar, saíram do seu esconderijo invernal com todas as cautelas.


Foi à luz do sol primaveril, para espanto de toda a comunidade, que se verificou que, ao contrário dos restantes bebés havia uma diferente, tinha uma mancha branca nos ombros.


O que era aquilo?


Todos sabem que um verdadeiro urso pardo tem uma pelagem mais ou menos escura, castanha.


Que nódoa era esta? branca? no dorso de um urso pardo? no de Kamay!


Vieram todos os especialistas e curiosos verificar a mancha que os deslumbrava assustadoramente, a sua mãe resolveu então ir morar para os recônditos do território cansada de tanta atenção e falatório em relação à sua filha, lá longe poderia criar as suas três ursinhas descansada, que foram crescendo a bom ritmo.


Kamay era muito ligada às árvores, considerava-as antenas naturais, ligação entre o céu e a terra, também associadas às sete cores da luz universal, gostava de estar sozinha para contemplar o mundo que a rodeava, confiando nos seus instintos de conexão com a energia solar assim como a lunar cheias de força e poder.


Até que, chegado o verão, deflagrou uma rara tempestade, raios e coriscos, relâmpagos e luzes vindas dos céus assustaram todas as famílias e resolveram por isso juntar-se em grupo.


Até que um raio acendeu as ervas secas e iniciou-se um enorme incêndio, todos os ursos em pânico correram para perto do rio à beira de uma ravina, para escaparem às chamas, atravessando uma ponte feita em argila seca.


Quando já todos tinham passado exceto as duas irmãs de Kamay, Arth e Bhele uma árvore pequena caiu em cima da passagem que se desmoronou deixando na outra margem as duas ursinhas assustadas, presas, à mercê das chamas que se aproximavam cada vez mais e intensamente, olhando aterrorizadas o vazio do precipício.


Kamay seguindo a sua intuição fez o inesperado, para grande desespero e susto de todos atirou-se para o vazio e de pronto, da sua mancha branca no dorso saíram duas enormes asas alvas que a levaram até próximo de uma árvore gigante, meio caída, já desenraizada, que se inclinava também ela perigosamente em direção ao fosso. Pediu-lhe para ser a ponte de conexão entre as duas margens possibilitando assim, às suas duas irmãs, chegarem sãs e salvas ao pé da sua afligida mãe.


(desenho a carvão por MJL - 2022)


Foi assim que se descobriu para que servia aquela estranha mancha branca no dorso de Kamay, que, a partir desse dia e para toda a família foi aceite e respeitada na sua linhagem até aos dias de hoje, sendo que não houve mais ursa alguma como Kamay, a ursa da mancha branca no dorso.



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