Contos da noite
- 8naturalinfinito
- 26 de set. de 2024
- 4 min de leitura
“... cabelos negros azeviche, com reflexos azuis, onde se podiam entrever e desvendar seres marinhos escamosos, luminosos, encantando com os seus cânticos voadores fantásticos e mágicos. O corpo encarquilhado como a casca do tronco de uma ancestral árvore, onde moram os seres da terra e do ar, mãos como gavinhas, raízes bem profundas até ao negrume do interior da terra…”
Esta era uma das histórias que ouvia a avó contar. Após o jantar no quentinho reconfortante calor da lareira em noites frias, quando escurecida muito cedo e antes de irmos dormir o grande sono do inverno.

(foto por MJL)
Foi ela, quem acreditando em mim, que me criou. Os meus pais saem cedo para trabalhar no campo, de sol a sol, assim vou crescendo selvagem, primitiva, sem fronteiras, o meu lugar é o mundo envolvente.
Com o que a terra dá trato dos animais feridos ou em perigo, solto-os das armadilhas dos caçadores furtivos, as leis proíbem colocá-las só que persistem.
Tenho muitas vezes esfoladelas e equimoses, o pai quando tem tempo, nos curativos, faz desenhos com sois ou estrelas, coloridos, feitos com mercurocromo ou tintura de iodo, pois a sua luz e simbologia é curativa.
A mãe coça-me as costas e trata-me quando adoeço, coloca a mão fresca na testa escaldante em noites de febre, troca os lençóis e pijama alagado em suor pela “luta” noturna, por outros lavados e frescos, é como que um renovar de alma.
A Avó delegou-me o poder das mãos que curam que veem o que os olhos não conseguem e o seu xaile cor de ametista, que uso até aos dias de hoje, como abraço, conforto e sabedoria intrínseco.
Eu venho da montanha, na aldeia onde moro todos me conhecem; “Lá vem a maluca sempre a correr”; não sabem como me chamo, atribuem-me vários nomes, cada família tem um para mim, Cabrita montesa, Corça saltitante, Loba fugidia, Raposa matreira, Lontra esguia e assim por diante… todos me conhecem, me veem passar a correr batendo os pés na calçada passando velozmente para o fofo da relva e musgo da floresta; “Em busca sabe-se lá de quê!” Dizem, encolhendo os ombros com um sorriso boníssimo no rosto.
Na montanha os habitantes são robustos, senhores de poucas palavras, sabem partilhar tudo o que têm, de outra forma não sobreviveriam aos tempos mais duros, os invernais, quando as neves persistentes, os ventos uivantes, o frio cortante se instala e passa pelas pedras e pelas casas da aldeia, apenas aplacados pelo fogo dentro que acalma o fora.
Tenho quatro tias irmãs da minha mãe, a da Fonte, do Lago, da Pedra e da Floresta. Cada uma mora no seu canto, às vezes entrecruzam-se e se estiverem de bom humor até partilham dois dedos de conversa ou algo que se coma ou sirva de curativo para uma qualquer maleita.
A tia da Fonte vive perto de um regato de água cristalina, fresca e saltitante, é pequenina e também saltita no seu andar apressado falando incessantemente com as águas que soam como o chilrear de pássaros. Dentro da sua casa, escondida pelo véu de uma cascata, há frascos de vários formatos contendo líquidos de todas as cores, dizem que curam ou matam. É especialista em poções e venenos, muitas pessoas visitam-na e por isso não vou lá muitas vezes.
A tia do Lago tem tez negra por usar máscaras de lamas retiradas das profundidades do lago. Mora numa das suas margens numa casinha de adobe que se confunde com o ambiente, não é fácil lá chegar e uma vez por lá não é fácil descobri-la de tão mimetizada que se encontra. Contem toda uma panaceia para males de pele e outros, digestivos, respiratórios, etc. ... Como aplica cataplasmas e faz massagens, tem muita procura pelas gentes necessitadas.
A tia da Floresta mora numa árvore gigante. Lá dentro há ervas frescas, a secar ou secas, penduradas algures, espalhadas pelas mesas e bancadas, em vasos ou a entrar pelas janelas com os raios de sol e de lua. Eu visito mais a floresta que a Tia. Só em alguns finais de dias de verão lá vou e ficamos a conversar até as estrelas se acenderem no firmamento, conhece como a palma das suas mãos. Fala-me das histórias de cada um dos planetas e das suas gentes longínquas e diferentes, nos seus modos de viver. Como as pessoas da aldeia e as da montanha? Perguntava eu. Sim, respondia a tia com a sua voz sussurrante como a brisa por entre os ramos das árvores.
A tia da Pedra reside numa caverna sinuosa, intrincada, labiríntica, só eu lá sei chegar. Quem quiser conhecê-la tem de chamá-la e esperar que apareça. Quem diria que sendo cega, se movimenta tão bem ao sabor das correntes de ar sabendo sempre onde está e onde encontrar tudo o que possui. A noite é a sua aliada, sai para colher os frutos mais exóticos e carnudos, os cogumelos, comestíveis ou não, as plantas mais aromáticas e as folhas mais texturadas. Faz poções, pastas, manjares únicos com todos estes ingredientes, sopas, guisados, patés, conservas e tudo guarda pelos corredores mais frescos e arejados. Veste-se de peles que encontra de animais já enviados para o outro plano. Tem igualmente os mais puros e poderosos cristais retirados às entranhas do subsolo com todo o respeito e apenas os necessários para os vários pedidos que recebe. Esta é a tia que mais visito, pois, a sua casa é abrigada do frio, do calor da luz e do som.
É o meu retiro para o longo sono do inverno que está para breve, será por lá que ficarei a maior parte do tempo.
Na aldeia e na serra ignoram o meu verdadeiro nome. Só eu sei qual é, um grunhido impronunciável, mas audível, que tem como sinónimos A Grande Ursa Nativa, a guardadora dos Sonhos, das lendas, das Estórias dos lugares e dos caminhos.
Eu, conheço-os todos! Eu sou isso tudo!
MJL




Comentários