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Eu sou o Pântano

(foto MJL - 2023)
(foto MJL - 2023)

Eu sou a lama de um pântano. Eu sou Pântano.


Ver e sentir as visões de quem vê, flat, de costas e sente na frente o ir e vir com as marés, com o calor, às vezes escaldante, do sol, as chuvas que salpicam e me perfuram, o vento que seca seja quente ou frio, gélido.


No dorso, sempre mais protegido movem-se criaturas do dia ou da noite que me perfuram em busca de alimento ou de abrigo.


Vejo os pássaros que me sobrevoam, que pousam e com os seus fortes bicos também me perfuram.


Às vezes não "vejo" na água da maré, não é límpida como antes, não é salobra, vem com outros ingredientes, cheiros, texturas que não reconheço.


Sou lenta, movo-me como uma serpente bem nutrida que digere o que ingeriu.


Agora surgem outras coisas que se prendem, que até a mim me prendem não as reconheço, movo-as para cima, pode ser que os outros elementos ajudem a libertar-me destas prisões.


Ao longo dos séculos mais e mais coisas destas me incomodam, com as madeiras podres, as plantas e animais em decomposição, esses, sei lidar com. Com os metais sei enviá-los para a superfície em que a água e o sol vão ajudando, secando e molhando, a corrosão instala-se e pedacinho a pedacinho consigo devolvê-los à Mãe terra.


Estes novos "seres" são jovens matérias, impermeáveis, coloridas, com formas muito dispares e tamanhos também.


Envio-os para cima, peço ajuda aos meus elementos do costume, só que resvalam e não se deixam agarrar, derreter, desfazer ou transmutar.


Às vezes parece que vão na vazante para regressarem na enchente.


Ao invés do meu odor fétido de morte e decomposição, estas novas coisas não exalam qualquer odor, não saem daqui, vão e vem, será que ainda demoram mais que os outros objetos? Será que ainda ficarão cá depois de mim?


Sei ser lenta e paciente, deve ser isso. De costas a olhar para cima a ver a lua e as luzinhas do firmamento no céu noturno, o sol e as nuvens passantes, as águas que sobem e descem. O frio e o calor, os grupos de plantas e animais que me habitam e agora também estes novos “seres” que teimam em ficar por séculos… intocados!


Por outro lado, muitas vezes, também me sinto maravilhada e vaidosa com estas cores que me pululam e me tornam num arco-íris inusitado, feito destes materiais mais resilientes.


Eu sou paciente, eu sou resiliente e também resistente.


Vou continuar a ser quem sou.


Eu sou o Pântano!


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