Marrã Bravia
- 8naturalinfinito
- 1 de jun. de 2025
- 4 min de leitura
(a filha da serra)
Na cordilheira constituída pela Serra da Arrábida em forma de onda, Serra do Louro e São Simão, formada há sete milhões de anos, com cerca de 500m de altitude, terrenos acidentados e clima mediterrâneo temperado, com areia branca junto ao mar luxuriante pintado de verdes e azuis, profundo, formando mini ondas, onde se pode escutar o seu marulhar constante que embala.
Há um trilho branco, rasgado, qual cicatriz, que sinuosamente atravessa o limiar de um prado verdejante, onde o orvalho rega os verdes, onde a brisa solta gentilmente os aromas primaveris das flores e ondula a erva alta, que no pino do verão se torna escaldante e nas estações mais invernais de chuva se torna húmido, frio e enlameado.
Foi num dia soalheiro bem no início da primavera, durante um passeio em silencio, escutando apenas o som arreganhado nos passos que piso, pedindo permissão para o percorrer seguindo a sua orientação, em que agradeço a dádiva do chão que sustenta, inserida num grupo de humanos, que me foi permitido conhecer uma javalina com três crias também fêmeas, que se apresentou e me acolheu.
Esta fêmea dominante, apresentou-se como pertencente a uma linhagem matriarcal ancestral antiquíssima, protetora do local neste que é o seu vasto território. É uma gironda com cerca de 10 anos, 100kg, 1m de altura, coberta com uma pelagem muito dura, num tom castanho avermelhado, proeminentes defesas, com uma visão pouco eficaz, porém, com uma audição e olfato bastante apurados. Disse-me gostar de banhos de lama no outono e inverno e banhos de mar no verão, quando a canícula dos dias longos atravessa toda a serra e vem usufruir, nas praias com areia branca, de banhos refrescantes nas águas geladas, límpidas e salgadas.

Todos os anos, a cada primavera após uma gravidez de quatro meses, a marrã dá sempre à luz três bacorinhos fêmeas. Após uma semana de nascimento saem pela primeira vez para fora do seu ninho. As farropas são desmamadas após quatro meses e começa a sua educação, sempre acompanhadas por perto pela sua prudente progenitora, que as defende de tudo e todos, ensina-lhes, arruando, os melhores caminhos, os melhores locais para descansar, colher os alimentos, foçando na terra, até terem idade para ficar sós e procurar outas paragens.
Prefere os bosques com bastante vegetação onde se pode esconder facilmente, mas também frequenta, à noite, áreas mais abertas, assim como zonas cultivadas. Come de tudo, fuçando a terra preferindo vegetais como raízes, frutos, bolotas, castanhas e sementes, às vezes invade terras cultivadas com especial apetência para os batatais e milharais, e, de vez em quando, também incluiu alguns animais como caracóis, minhocas, insetos, ovos de aves e até pequenos mamíferos, mortos, na sua variada dieta.
Sem predadores naturais, apenas o bicho homem a caça e assim vive com medo, em terror, sente vontade de fugir ao ouvi-lo longe e cheirá-lo mais de perto, optando na maioria das vezes por se esconder.
Não é muito territorial, mas é uma fêmea dominante, de maior porte, gosta de ficar um pouco mais afastada do grupo como Guarda e, se necessário, dará a sua vida para que os restantes elementos da vara fujam. Algumas vezes reúne-se a outros grupos matriarcais e jovens varrascos que vivem na periferia para troca de experiências.
É símbolo de coragem e bravura, um dos aspetos da natureza de Afrodite, a mãe-amante na sua forma animal, violenta e destruidora, que tanto é capaz de criar como de tomar uma vida. Alternativamente, o seu espírito leva-a a enfrentar desconfortáveis situações de frente, a única forma de ter clareza, resolvendo algumas situações de forma justa e equilibrada, enfrentando medos e encontrando paz.
O encontro com ela anuncia o início de períodos de crescimento pessoal, prosperidade e saúde, momentos de ser autoconfiante, de alcançar progresso e contentamento, dando tudo de si, acreditando em milagres, sem carregar ressentimentos.
Sendo também gentil e altruísta, proporcionou-me uma amizade muito duradoura, com grande lealdade, ajudando-me a indagar profundamente por respostas para algumas perguntas, e foi isso que aconteceu entre nós.
Na sua companhia conheci a Guardiã das grutas, onde se pode desaparecer sem deixar rasto, profundas e labirínticas, tuneis e câmaras calcárias subterrâneas e submersas, escavadas e erguidas em estalagmites ou estalactites, esculpidas pela água da chuva infiltrada, por toda a serra furada. Conheci a gruta dos morcegos cuja entrada se faz pelo mar das águas frias e cristalinas.
Conheci a grande Avó, a árvore milenar que protege e cuida os terrenos circundantes, a sua flora que abriga a fauna local, conhecido como o símbolo da serra. É aí que nos encontramos todas as noites de lua cheia e nos sentamos abraçadas pelas suas raízes protetoras.
E é sob estes ramos protetores, do sobreiro colossal, que a serra, a rocha, a javalina e eu, numa conversa muda, de escuta interativa, como um xaile protetor de sabedoria ancestral milenar, em teias tecidas pela vida, da sombra à luz, que trocamos experiências e histórias.




Comentários