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O Peixe entortado

Nos grandes mares morava um peixe voador chamado Volans Teleósteo, este pequeno peixe nadava e voava todo torto, pois não só tinha uma barbatana maior que a outra como eram diferentes entre si e muito belas.



(desenhado a carvão por MJL - 2022)
(desenhado a carvão por MJL - 2022)

Voava errático e assim conseguia enganar os seus perseguidores pois nunca se sabia que caminho iria tomar, quando menos se esperava lá ia ele, derivando de um caminho para outro com uma facilidade pouco comum, ora os seus professores nadadores/voadores orientadores de estratégia, de bússola, desesperavam com isso, não sabiam como colocá-lo no caminho certo. Os seus pais também não tinham conseguido endireitá-lo, desde pequenino e jovem peixinho que o tentavam a todo o custo.


Os peixes avós, já fantasmas, entreolhavam-se sorrindo.


Como não cabia na norma do cardume os pais resolveram enviá-lo para as profundezas onde habitava um outro ramo da família, os Malacosteus Niger, os peixes de “vidro”, transparentes e luminosos. Habitavam nos abismos escuros, todos tinham temor a estes monstros abissais.


Volans não era exceção, também ele receava esses seres míticos e desconhecidos e ainda por cima sentia medo da escuridão.


Ao chegar a meio caminho os pais passaram-no a um enorme primo, o Anoplogaster e lá foi ele.


Após alguns dias de adaptação ao escuro foi conhecendo cada um dos seus parentes e vizinhos que, apesar do aspeto estranho eram muito divertidos e luminosos por dentro.


Por viverem nas profundezas estas criaturas desenvolveram habilidades incomuns, como a de produzir luz própria ou aparentar invisibilidade. Aproveitando estas habilidades passavam parte dos seus dias a pregar partidas uns aos outros escondendo-se e aparecendo de repente com as suas luminescências com formas inventivas, parvas e ridículas, rindo até ficarem todos acesos.


Volans compreendeu que no fundo, afinal, era tudo família(r) e o que ele tivera medo fora do desconhecido. Aprendeu que ser transparente e luminoso por dentro, não se levar a sério, rir-se de si e ter uma barbatana diferente da outra fazia dele um ser único que, com esses talentos, poderia contribuir de forma, também ela única, para o bem comum.


Apesar de ser muito divertido viver com os primos, tios e vizinhos, Volans começava a ter saudades da sua casa e dos seus amigos da superfície onde não havia só água mas também o ar fresco, por onde ele voava livremente e onde já tinha conhecido muitas outras espécies com quem mantinha laços de amizade.


Conhecia muitos seres do ar, os pássaros marinhos, aves que só iam a terra nidificar, os seres da terra, pinguins que só lá iam no verão, o povo das focas que ia para as praias de seixos e areias negras dos vulcões para se bronzear, caranguejos e muitos mais.


Agora, adulto, queria começar a ter uma função. Não poderia viver para sempre na casa dos seus pais ou com os parentes das funduras.


Que fazer? pensava ele rumando entre a escuridão das fossas profundas, a água turquesa mais à superfície e ao ar quente lá bem acima. Até que teve uma brilhante ideia, porque não fazer a ligação entre estes mundos tão diferentes? Com o povo do mar mais superficial, o do fundo, da terra e o do ar?


Se assim o pensou… melhor o fez, começou a trazer artefactos de cada um desses lugares, montou uma rede de contactos, fazia trocas de objetos que tinham deixado de ter serventia a uns para dar serventia a outros, trouxe novas ideias, contactos, auxiliava na resolução de questões e ajudava a firmar novos acordos.


Passou a ensinar o seu dom, de, como escapar a predadores e pescadores usando as técnicas de “fuga” errática por causa das suas duas belas e diferentes barbatanas.

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