top of page

Sêmea a Serpente

No princípio era a escuridão!


Abriu os olhos e não viu, escutou e não ouviu, saboreou o ar e não sentiu o aroma das partículas de odor, estava dentro de algo, confinada a um espaço que lhe parecia cada vez mais ínfimo e negro.


Sem se poder conter mais teve de rebentar com tudo, saiu com um colossal urro rasgado de libertação e dor ao partir do conhecido, da sombra para a luz, criada ao mesmo tempo pelas suas irmãs, no mesmo ninho, cada uma seguindo o seu caminho.


Foi a última, estava dentro de um dédalo feito com uma miríade de gavinhas, ramos retorcidos a direito ou em arco, à volta deles um labirinto erigido para proteger o ninho de potenciais perigos e envolvida pelo corpo embolado da sua progenitora, A Que Sustenta, a misteriosa serpente cósmica do conhecimento, enrolada sobe si mesma numa esfera gigantesca, reservatório de todas as latências subjacentes à manifestação, num movimento infinito.


Olhou para cima, viu a sua irmã mais próxima, A Que Brilha e um pouco mais longe A Que Ilumina, só lhe restava ficar, e permaneceu.


Ao longo de milhares de anos começou a conceber lugares, com a sua passagem a Norte uma falésia com um mar gelado revolto, a Este montanhas e planaltos com florestas de árvores ancestrais, gigantes verticais que aguardam, a Sul um deserto de areias brancas e escaldantes e a Oeste grutas pejadas de túneis, covas e cavernas.


A criadora de lugares com alma sempre em constante mutação à sua passagem, A Que Cria, a Serpente das metamorfoses, sinuosa, de nome Sêmea, com o passar dos tempos foi perdendo a pele enquanto crescia, ficando incorporado cada vez mais fundo. A cada mutação, a sua nova pele nas escamas lustrosas e duras, exibia intrincados desenhos impregnados, como uma tatuagem infinita e primordial.


Primeiro chorou lágrimas amargas e salgadas pela perda das suas milhares de irmãs no firmamento, mais próximo, outros planetas e luas e mais longínquo as estrelas e os respetivos astros. Foi assim, a Norte, que gerou um mar profundo e o submerso solo submarino.


Com o seu corpo agora agigantado tornou-se numa serpente marinha a ondular, criando ondas sinuosas, tempestuosas ou calmas, serpenteando e saltando no mar nas ondas revoltas. Criou também ondulações no ar, modeladoras dos ventos envolventes, brisas de onde as chuvas caem. Foi a partir das escamas libertadas que se começou a gerar vida, primeiro as algas ondulantes que depois se tonaram em toda a diversificada de outros seres, flora e fauna.


Subindo acima da A Que sustenta, a Este, empurrado pelo seu corpo flexível concebeu a partir do solo submarino lugares mais secos, planícies, campos férteis, montes, planaltos, serras, cordilheiras como ondas enrugadas. As montanhas e vales sinuosos, foi abrindo rasgos, para a água passar formando riachos, correntes, rios, cascatas e lagos, escavados à sua passagem, marmitas de gigante, algares.


Uma vez mais a vida vai acontecendo, em cada escama diversifica-se semeando tudo quanto é vegetação, desde a erva mais fina até às gigantescas árvores que em seguida despertam todos os animais.


Descendo pelas montanhas e vales, para Sul, das rochas escavadas no chão, blocos de pedra dura vão-se reduzindo a pedras e areias cada vez mais finas, com o seu ondular transporta-as formando dunas sinuosas. Com cada vez menos escamas aqui e ali vão aparecendo luxuriantes oásis ou poços com água, bem como os habitantes animados nestes lugares mais estéreis e quentes.


Já cansada, regressa ao centro, formando corredores, túneis, abrindo cavernas, galerias, salas, câmaras com acústica diversa, com torres, tubos, agarradas ao teto e ao chão aparecem estalagmites e estalactites brilhantes e sonoras, parecem colunas, mantos e bandeiras ondulantes.


Algumas cavernas ostentam lagoas profundas conectadas, cursos de água, rios, ora calmos, sussurrantes ora com estrondosas quedas de água que mais tarde irão regressar ao mar. Estes espaços encontram-se adornados com lagoas quietas como espelhos, nas paredes cristalizações solidificadas fazendo lembrar pérolas, nenúfares, discos, esferas, anéis, agulhas ou dedos empedernidos como que congelados eternamente.


Esta é Senhora do princípio vital de todas as formas da natureza, a origem da vida neste planeta que chamamos Gaia. Criadora da Pangeia que depois com alguns tremores e movimentos mais subtis se separando no que hoje são os continentes.


A que mantém, é a que anima, de onde tudo provém e onde tudo volta para se regenerar, a serpente meteorológica simbolizada pelo arco-íris, a grande serpente, a Senhora do mundo original que cospe o sol nascente e engole o sol poente no ventre da terra onde opera toda a alquimia de regeneração.


A Que Sustenta reaparece de vez em quando, veloz como um relâmpago pode surgir, primeva, de uma abertura escura, intemporal na sua completude e voltar para o invisível, a serpente-princípio que reside nas camadas profundas da terra enigmática e secreta, pertença da noite das origens, pertença da coisa primordial.


Em conjunto com as suas irmãs, de onde provêm todas as manifestações, vivificante é a que dá vida.


Neste processo de construção do espaço no tempo ainda hoje há quem a veja, nas suas transmutadas formas ondeando pelo ar, pelas águas ou pela terra.


É considerado bom augúrio vislumbrá-la, nem que seja de relance, agora trazendo luz ao mundo!

Inspirada numa frase que conheço desde miúda e não me recordo a sua origem:

“Sêmea a serpente sou e serei sempre Sêmea a serpente”

Comentários


bottom of page